blog Eric Alatza

Paradoxo de Cingapura

24/03/2015 por Eric Alatza

 

Tenho escrito muito pouco no blog nestas últimas semanas. Me perguntei o porquê disso e na verdade a resposta veio rapidamente: Os acontecimentos políticos em nosso pais tem mexido muito comigo. Não só isso, mas o volume de acontecimentos, obviedades finalmente vindo à luz e o quanto as pessoas, muito justamente, ecoam os fatos tem me deixado muito reticente quanto à relevância do que quero escrever. Bom,  acho que este será um bom post para nossa reflexão.

Esse post já vinha se moldando na minha cabeça, mas sua forma óbvia de paradoxo foi concebida pela triste notícia da morte de Lee Kuan Yew no último dia 23. “Mas quem era esse cara?”, você deve estar se perguntando, calma que esse Cara amarra o post e ajuda-nos a pensar no Brasil.

Lee Kuan Yew foi responsável por uma façanha digna de cair o queixo de qualquer estadista, ele transformou uma pequena cidade estado do terceiro mundo sem raízes históricas individuais, sem recursos naturais em um país desenvolvido, com indicadores de dar inveja a qualquer nação do primeiro mundo e considerado um dos três melhores lugares para se viver no planeta. Tudo isso em apenas uma geração. Lee Kuan Yew sempre será, como os próprios cingapurianos o chamam, “O Pai Fundador” de Cingapura.

Não vou contar sua trajetória política, nem falar de sua gestão tão eficiente e emblemática, até por que gostaria de provoca-los a pesquisar tanto sua vida como a história de Cingapura. Ao invés disso, vou contar minha impressão pessoal em Cingapura e seu povo. Até 2010, minha rasa noção de Cingapura era o GP de fórmula 1, fabricante de eletrônicos e o projeto habitacional meia boca de Maluf, que se “apropriou” do nome para divulgar o projeto “inspirado” no belíssimo projeto habitacional popular de Cingapura(também vale muito a pena pesquisar).

Costumo dizer que Cingapura é que é realmente primeiro mundo ou ainda que é o primeiro mundo do primeiro mundo. A economia, o desenvolvimento social, a organização, a eficiência, para onde você olha você vê sinais de uma sociedade mais evoluída. Essa foi a impressão que ficou quando estive lá em 2010. Quando conversei com um cingapuriano sobre qual era o segredo daquele lugar ele respondeu sem pestanejar: Lee Kuan Yew. Os cingapurianos atribuem ao “pai fundador”, que foi primeiro ministro de Cingapura por trinta anos, todo o sucesso do pequeno país. Um homem austero, de visão, determinado, excelente gestor e principalmente com uma visão para o pais. Lee Kuan Yew tinha um plano para Cingapura.

E esse é o núcleo deste post, fazer esta triste comparação. Refletir sobre este paradoxo. No Brasil sequer temos bons líderes, no poder ou almejando-o. Mas principalmente sofremos com uma falta de projeto, de um plano que traga nossos objetivos como sociedade e nação. Em Cingapura, o mundo viu um homem com visão, com um plano, transformar uma ilha estéril de terceiro mundo, expulsa da federação da Malásia em um exemplo de país e sociedade. No Brasil temos a faca e o queijo, todas as condições e só nos sobra a mediocridade, políticos “privatizando” as instituições para seu enriquecimento ilícito ou para projetos de poder onde o único produto para a sociedade brasileira é se tornar uma republiqueta de bananas, um meio para os vilões. Está aí o paradoxo.

Por agora, você pode estar pensando que eu torço para a chegada de nosso Lee Kuan Yew. Um estadista salvador com todas as virtudes para nos levar a glória. Não é o caso, na verdade é o oposto disso. Apesar de eu não ter problema em mudar de ideia, não estou pronto para contradizer este outro post.

Lee Kuan Yew deixa como maior legado, na minha opinião, a prova de que é possível. E o mais importante é o plano, o norte, o objetivo, onde queremos chegar. Afinal, o que você quer do Brasil ou para o Brasil? Só tirar? Para você, assim como para a corja que “comanda”esse país, o Brasil é apenas um meio para seus fins pessoais e egoístas? Você enxerga seu país como essa gente?

O “plano” é o mais importante porque a verdade é que Cingapura deu sorte. Sim, sorte de ter um líder como Lee Kuan Yew. Um país depender apenas da visão de um homem e se apoiar nisso sem participar e se responsabilizar é rolar os dados, é girar uma roleta e esperar o melhor. Já jogamos muito esse jogo no Brasil e só perdemos até hoje.

Como já disse e insisto, O único agente capaz de ainda CRIAR e garantir um plano, um futuro para o eterno “pais do futuro” é o próprio povo brasileiro. Disponha-se, proponha-se, responsabilize-se, conscientize-se, com suas própria pernas, mãos e cabeça. Temos como criar nossa Cingapura, sem precisar contar com a sorte de assistir ao surgimento de um novo Lee Kuan Yew. Até mesmo porque, eu não lembro de ter visto muitos pelo mundo, hoje ou no passado. E tenho certeza que no Brasil não existe nenhum, seja de qualquer lado do espectro político, seja da sociedade civil, sejam as forças armadas ou qualquer outro devaneio que você possa ter sobre líderes salvadores.

Cingapura teve sorte e mesmo assim não foi sem sua medida de controvérsia. O próprio Lee Kuan Yew era criticado por suas posições autoritárias em relação a liberdade de imprensa por exemplo e isso é sempre perigoso em qualquer sociedade. Não conte com a sorte, não torça por um salvador que resolverá todos os problemas. Apoie-se na democracia e na sua responsabilidade dentro dela. Ajude a criar um Brasil digno do futuro.

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Comentários

  • Bia Cavalcanti disse:

    Excelente texto! Não tenho esperança no Brasil, a própria população é corrupta, todos querem ter vantagem em tudo, “dar um jeitinho”…muito triste

    • Eric Alatza disse:

      Obrigado Bia! Pois é… É muito triste mesmo e realmente não há esperança para o Brasil enquanto a “cultura” não mudar. É uma escolha que o povo brasileiro terá que fazer, cada um por si ou em conjunto. Que é possível mudar é, Cingapura provou isso, mas não é fácil e demanda muita energia de todos por muito tempo.

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