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Aprenda a jogar xadrez bolivariano

14/12/2014 por Eric Alatza

Vou te ensinar a jogar xadrez bolivariano. É um jogo muito divertido, revolucionário e socialmente igualitário.

Vamos lá!

 

Jogadores

No xadrez tradicional existem as peças brancas e as peças pretas. Por convenção, o jogador com as peças brancas inicia a partida. No xadrez bolivariano isto é racismo e uma tentativa, por parte da classe dominante, de gerar ódio e divisão baseada na cor das peças do tabuleiro. Sendo assim, as peças pretas são removidas do tabuleiro e dão lugar a peças vermelhas, que simbolizam a luta, a revolução e a martirização do proletariado. O recém formado lado vermelho não é chamado de vermelho e sim de “lado social”, por sugestão do marqueteiro que sequer aparece no tabuleiro, ele joga por fora mesmo. O lado branco continua sendo branco, mas passa a ser chamado de “elite branca”, também decisão do marqueteiro… aquele do lado social.

Peças

Como você deve saber, no xadrez tradicional existem seis tipos de peça: o peão, a torre, o cavalo, o bispo, a rainha e o rei. O xadrez bolivariano é muito mais simples, emancipado do capital e socialmente igualitário.

O lado vermelho, ou lado social,  possui apenas dois tipos de peça: o peão ou “militante” e o rei,  ou melhor, o “Companheirão Che Canhotinha do Popular”, CCCP ou simplesmente “Companheirão” ou “Companheirona”. Cada militante ocupa uma casa padrão assim como no xadrez tradicional e em algumas ideologias utópicas, já o Companheirão ocupa uma casa com o tamanho de quatro casas tradicionais(quadruplex) no centro do lado social. Mesmo com essa diferença gritante de patrimônio imobiliário, o discurso do lado social é de que todos são iguais e tem os mesmo direitos e querer uma casa grande no tabuleiro é coisa de capitalista neo liberal da elite branca. Os peões vermelhos, ops… os militantes, parecem ignorar essa inconsistência desde que continuem sendo favorecidos pela máquina pública do tabuleiro comandado pelo lado social.

Enquanto isso no lado branco, ou melhor na elite branca, só existe um tipo de peça mesmo, a torre, que representa de forma incontestável o materialismo alienado dos capitalistas de classe, vulgo “burguesinhos” .

Regras do Jogo

Ao contrário do xadrez tradicional, no xadrez bolivariano não é o lado branco que começa. Isso seria discriminação, fascismo e opressão às minorias. No xadrez bolivariano é fundamental a justiça social e a luta contra as vantagens das classes abastadas dominantes, portanto é o lado social que obviamente inicia a partida.

O lado social pode mover qualquer militante de forma “democrática”, com foco no social e apoiado pelas urnas não auditadas. Na prática, cada peão vermelho é manipulado no tabuleiro pelo Companheirão e pode ser movido quantas casas forem necessárias, cada casa adicional além da primeira sustentada por um argumento diferente como por exemplo: financiamento de “movimentos sociais”, acordos fechados no balcão de negócios do Congresso, vista grossa da grande mídia ou alienação da população, ou melhor, elite branca. Afinal, de acordo com as regras do jogo, qualquer um que se oponha ao lado social automaticamente faz parte da elite branca.

O Companheirão não se move muito, a não ser em época de eleições, quando o mesmo roda o tabuleiro todo discursando sobre o mau que é a existência “dazelite” e que a “zelite” quer acabar com o bolsa tabuleiro das peças vermelhas.

Em caso de denúncia de jogada irregular, ilícita ou inconstitucional por parte de qualquer um que se oponha ao lado social, o mesmo tem a prerrogativa de se valer de táticas populistas, do aparelhamento do tabuleiro e seus poderes além do estelionato eleitoral para esvaziar as denúncias e “desidratar” o adversário acusador.

O lado social captura uma peça adversária simplesmente invadindo a casa da qual a peça da elite branca é dona. Assim representando a invasão legítima do latifúndio improdutivo e a ocupação social da propriedade privada que deveria abrigar os que  tem mais necessidade e não tem teto. A peça branca capturada não é removida do tabuleiro, ela simplesmente é decretada uma peça vermelha e passa a ser controlada pelo lado social, contribuindo para o projeto de poder do Companheirão Che Canhotinha do Popular e sua turminha esperta.

Já a elite branca, só pode “tentar” mover suas peças uma casa por vez, isso sob barulhentas acusações de atitude neo liberal, fascista, reacionária, golpista, saudosista da ditadura militar e coxinha(de frango com catupiry que é mais cara, lógico).  O lado social então decide de forma democrática através do tabuleiro aparelhado, que a jogada da elite branca deve ser anulada pois estimula a desigualdade e ameaça as conquistas sociais pelo fato de uma peça branca ocupar um espaço no tabuleiro que deve ser propriedade comum, do povo.

Nota importante sobre regras: Não importa quais são as regras, para o lado social elas são opcionais e adaptáveis conforme a necessidade do “social”, do projeto de poder ou do Companheirão mesmo.

Jogadas especiais

No xadrez tradicional existem algumas jogadas especiais como o roque, o en passant e a promoção do peão. O xadrez bolivariano possui treze jogadas especiais e mais dezenas de propostas de novas jogadas, todas aguardando aprovação no Congresso com maioria da base aliada e vão passar, certeza. Curiosamente todas as treze jogadas especiais são a favor do lado social.

O sumiço e a curiosa escalada do militante são dois exemplos comuns de jogadas especiais.

O sumiço é parecido com o roque do xadrez tradicional mas ao invés do rei trocar de lugar com a torre, o Companheirão quando em xeque, sob suspeita, acusação ou baixa popularidade, some do tabuleiro até a poeira baixar ou até todos esquecerem o motivo do sumiço.

Por sua vez, a curiosa escalada do militante é parecida com a promoção do peão do xadrez tradicional mas na versão bolivariana do jogo, a peça vermelha ou militante, que atravessa o tabuleiro e chega à última casa do lado adversário, ao invés de ser apenas promovida ela ganha uma ONG financiada pelo tabuleiro se for um militante de um movimento social, ganha uma emenda no valor de 748.000 “dinheiros nossos” se for um parlamentar da base, ganha um ministério se for líder de partido aliado e se o militante que chegar lá for da família do Companheirão, aí ele ganha até uma gorda participação em uma das maiores empresas de processamento de proteína animal do mundo. Aliás, neste último caso, a peça vermelha nem precisa chegar em lugar algum.

Como o jogo acaba

o xadrez bolivariano acaba quando:

– O lado social quebra o tabuleiro e não consegue mais financiar a máquina pública, muito menos os serviços públicos essenciais ao jogo. Aí a elite branca é obrigada a assumir e tem que pedir dinheiro emprestado ao FMIdeT (Fundo Monetário Internacional dos Tabuleiros). A austeridade é imposta, o cinto é apertado e todos tem que trabalhar mais para pagar a dívida gerada pelas peças vermelhas e pelo Companheirão do lado social. O resultado é muita revolta no tabuleiro, insatisfação e greves dos militantes que achavam bem mais legal jogar sustentados pelo poder público. Curiosamente, as peças vermelhas simplesmente não conseguem enxergar que o dinheiro acabou.

– Ou o lado social vence convertendo todas as peças do tabuleiro em vermelhas, impondo a hegemonia política , cultural e o domínio ditatorial larápio sobre o que quer que tenha restado da economia. Todas as peças do tabuleiro são decretadas iguais e obrigadas a se comportar como tal.  Nenhuma peça tem o direito de ser diferente, de se expressar, de se opor ao lado social  ou direito a propriedade privada. Bom, todas menos o Companheiro Che Canhotinha do Popular ou Companheirão, este continua a peça mais alta e rica de todas, sua casa no tabuleiro continua quatro vezes maior que as demais, uma casa do mesmo tamanho lhe é construída por uma grande empreiteira gente fina no antigo lado branco com dinheiro de caixa dois de campanha, uma pizza do tamanho do tabuleiro é assada em comemoração a vitória da democracia e o Companheirão ainda aparece em frequentes pronunciamentos ao tabuleiro dizendo que tudo é uma maravilha  graças a ele e à luta do lado social. Qualquer problema que por ventura apareça só pode ser culpa da elite branca, ou da crise internacional dos tabuleiros. E são nestes pronunciamentos que todos podem apreciar o Companheirão com seu novo Rolex modelo top neo liberal master blaster com cronógrafo. Até mesmo porque ditador do lado social sem Rolex é bem meia boca, companheiro.

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